A 5 de Março de 1954 nascia João Manuel Gonçalves Lourenço, na cidade do Lobito, província de Benguela, filho de Sequeira João Lourenço, enfermeiro, e de Josefa Gonçalves Cipriano Lourenço, costureira. Alguns meses depois, a 30 de Outubro, nascia no Bairro de Benfica, em Nova Lisboa, Huambo, Orlando de Sousa Castro, filho de Adelino Loureiro de Castro, marceneiro, e de Rosa Ferreira de Sousa, doméstica.
Por Orlando Castro
Em 1974 os dois tinham 20 anos de idade. Nessa altura, como ambos sabemos, Angola era o segundo maior produtor mundial de açúcar; o terceiro maior produtor mundial de café; o quarto maior produtor mundial de algodão; o primeiro exportador africano de carne bovina; o segundo exportador africano de sisal; o segundo maior exportador mundial de farinha de peixe.
Nessa altura, como ambos sabemos, Angola tinha, por via do Grémio do Milho, a melhor rede de silos de África; o CFB – Caminho de Ferro de Benguela, do Lobito ao Dilolo-RDC, o CFM – Caminho de Ferro de Moçâmedes, do Namibe até Menongue, o CFA – Caminho de Ferro de Angola, de Luanda até Malange e o CFA – Caminho de Ferro do Amboim, de Porto Amboim até à Gabela.
Nessa altura, como ambos sabemos, também tinha no Lobito estaleiros de construção naval da SOREFAME; pelo menos três fábricas de salchicharia; pelo menos quatro empresas produtoras de cerveja, de proprietários diferentes; pelo menos quatro fábricas diferentes de tintas; pelo menos duas fábricas independentes de fabricação ou montagem de motorizadas e bicicletas; pelo menos seis fábricas independentes de refrigerantes, nomeadamente da Coca-Cola, Pepsi-Cola e Canada-Dry, bebidas alcoólicas à base de ananás ou de laranja. E havia ainda a SBEL, Sociedades de Bebidas Espirituosas do Lobito.
Nessa altura, como ambos sabemos, também tinha a fábrica de pneus da Mabor; três fábricas de açúcar, a da Tentativa, a da Catumbela e a do Dombe Grande; era o maior exportador mundial de banana, graças ao Vale do Cavaco; tinha uma linha de montagem da Hitachi, dos óleos alimentares da Algodoeira Agrícola de Angola, tinha a indústria pesqueira da Baía Farta e de Moçâmedes, e a EPAL, fábrica de conservas de sardinha e de atum.
João Manuel Gonçalves Lourenço, tal como eu, aprendeu a ler e a escrever nessa época. Fez os estudos primários e secundários na província do Bié e também na cidade capital, na antiga Escola Industrial de Luanda e no Instituto Industrial de Luanda. Nessa altura, como ambos sabemos e ao contrário do que hoje – 50 anos depois – acontece, não nos sentávamos numa pedra, ou numa lata de “Nido”, porque as salas de aulas tinham carteiras de madeira.
Hoje, ao contrário do que acontecia nessa altura, 68% da população angolana é afectada pela pobreza; a taxa de mortalidade infantil é das mais altas do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças; apenas 38% da população angolana tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico.
Hoje, ao contrário do que acontecia nessa altura, apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade; 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.
Hoje, ao contrário do que acontecia nessa altura, 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos; a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos.
Hoje, ao contrário do que acontecia nessa altura, o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao MPLA; Angola é um dos países mais corruptos do mundo e que tem mais de 20 milhões de pobres.
Nessa altura, como ambos sabemos, todos nós lutávamos contra o colonialismo português. Cinquenta anos depois, tu lutas contra o nosso povo e eu continuo a lutar contra os que tratam os angolanos como escravos. Não é por dizeres, caro João Manuel, que “o MPLA fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500” que vais conseguir fazer os rios desaguar na nascente.


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